Uma entrevista de Sorrentino
Quinta-feira, Novembro 12th, 2009Em Abril de 2007, a revista digital Minguante publicava uma entrevista a Fernando Sorrentino, conduzida (e traduzida) por Henrique Fialho. Reproduzimo-la aqui.
Minguante: Queremos começar esta pequena entrevista de uma forma clássica. Lembra-se da primeira história que escreveu? Se sim, qual? E como recorda essa experiência?
Fernando Sorrentino: Não, não poderia lembrar-me, pois tentei escrever muitíssimas histórias já desde a adolescência. E, naturalmente, por ser muito novo, pela minha escassa cultura e falta de experiência, essas histórias terminaram no cesto do lixo. Quase todos os contos que integram o meu primeiro livro, La regresión zoológica (que é de 1969), são bastante maus, fruto da imaturidade literária que me afectava naquela época muito juvenil. Em contrapartida, recordo-me perfeitamente do meu primeiro texto a ser publicado: foi o conto “Cosas de vieja”, que ganhou um prémio menor num concurso literário e foi editado na Nuestros Hijos, uma revista publicada em Buenos Aires há uns quarenta anos. Bem, esse conto foi incluído em Imperios y servidumbres, e ainda hoje me parece bastante honesto.
M: O conto tem sido uma das suas formas privilegiadas de expressão. Existe alguma razão para isso?
FS: Existe a razão de um “mandato interno”. O meu “cérebro literário” tende a imaginar histórias que possuem uma forma mais ou menos breve, uma forma que corresponde ao conto e que, em geral, dificilmente poderia estender-se até ser um romance.
M: Prefere que o leiam como um escritor argentino ou como um escritor sul-americano?
FS: Nunca me ocorreu pensar em semelhante assunto. Porém, há uma circunstância inevitável e iniludível: não tenho maneira de não ser argentino e de não ser sul-americano, pois, irreversivelmente, sou ambas as coisas. E, sem dúvida, a Argentina fez-me assim, com certas “características argentinas” que nós, dentro do nosso território, não notamos, mas que são assinaladas quando estamos noutro país. Ainda que a minha linguagem seja muito argentina (como poderia não ser assim?), procuro sempre evitar os rasgos excessivamente localistas e tento escrever num espanhol, digamos, “geral”, para que se entenda sem dificuldade em todo o mundo hispânico.
M: A Argentina é rica em contistas, dos quais o mais conhecido é, sem dúvida, Jorge Luís Borges. Como vê o panorama literário argentino na actualidade?
FS: Devo confessar que, se bem que tenha lido quase todos os autores argentinos mais velhos que eu, praticamente não conheço as obras dos mais jovens. Isto não se deve a desinteresse nem desdém, mas apenas ao facto de, em geral, já não ler tanta literatura como antes e também porque prefiro reler (com uma nova perspectiva) autores que li na minha juventude.
Depois de Borges, o narrador argentino que mais admiro, aquele que me fez passar horas e horas de imenso prazer com as suas histórias, é Marco Denevi.
Por outro lado, não tenho maneira de elogiar dois autores que são endeusados pela temerosa “crítica oficial” argentina mas que não me agradam: Horacio Quiroga e Roberto Arlt.M: A minificção é um género literário especialmente explorado na América do Sul. Qual o lugar da sua obra no contexto da literatura sul-americana?
FS: Escrevi alguns contos muito breves, mas nunca “buscando-os”, apenas, simplesmente, porque o assunto que tratavam requeria brevidade. Em geral, não me agrada a leitura de “minicontos” nem de “microcontos”: é uma leitura que me obriga a um esforço intelectual que não é recompensado de imediato.
M: Como é que caracteriza, se tal for possível, a sua obra?
FS: É muito difícil falarmos de nós próprios. Creio que sou diferente da maioria dos meus colegas: para o bem e para o mal, creio que não me pareço com ninguém. Após tantos anos a escrever e a publicar, e sem que o tenha procurado deliberadamente, vejo que nos meus contos existe uma mescla de fantasia com verosimilitude, de humor com absurdo…, enfim, não poderia explicar porquê, mas sei que tenho uma espécie de “marca de fábrica” que me distingue facilmente dos demais.
A literatura de carácter “realista”, “social”, “psicológica”, “política”, etc., não me interessa: aborrece-me terrivelmente ler essas tentativas vãs de fotografar ou reproduzir a realidade. E não apenas me aborrecem como também, além disso, as vejocomo contraproducentes: o “realismo” literário é um género tão convencional como o “fantástico” literário e como todos os demais. Por outro lado, esse tipo de literatura parece-se demasiado às meras notícias dos jornais.
Encanta-me ler histórias onde ocorram episódios estranhos, sob a condição de que as mentiras estejam bem narradas: a verosimilitude é essencial. Aquele que não sabe ser verosímil não sabe narrar.
Por razões de trabalho, há alguns meses tive que reler, quase ao mesmo tempo, o David Copperfield, de Dickens, e La bahía de silencio, de Eduardo Mallea. O romance de Dickens é a obra de um mestre; o de Mallea, a obra de um equivocado.M: Em muitas das suas histórias encontramos uma relação dúbia entre os protagonistas e o narrador. Muitas vezes o narrador confunde-se com o próprio autor. É o Fernando Sorrentino a personagem principal das suas histórias?
FS: Queira-se ou não, toda a literatura é autobiográfica, inclusive em todas as mentiras e em todos os embustes que o narrador inventa. De um modo ou de outro, creio que estou sempre dentro dos meus relatos. Talvez não como personagem explícito, mas sim nos pormenores, na construção dos argumentos e no clima geral da narrativa.
M: Qual a importância do humor naquilo que escreve?
FS: Eu nunca digo: “Vou escrever uma história humorística”. Mas, à medida que vou escrevendo, as situações humorísticas vêm à luz, surgem “naturalmente”, tal como ocorre a todo o instante na vida de qualquer pessoa. Porém, trato de não exagerar: o humor apenas deve ser um condimento de uma história, nunca o seu núcleo.
M: O absurdo é uma das dimensões dos seus contos. Há alguma relação entre a realidade e o absurdo na sua obra?
FS: É que vivemos num mundo absurdo, num mundo quase demencial. Basta ler o jornal ou ligar a televisão, para vermos um desfile de coisas de loucos, de situações sem lógica alguma, carentes da menor racionalidade. E esses disparates são não apenas aceites com benevolência como também, além disso, recompensados.
M: Conseguiria deixar de escrever?
FS: Nunca escrevi demasiado e jamais escrevi “de ofício”. Só me ponho a escrever se me ocorre alguma ideia que tenha a possibilidade de se converter numa história mais ou menos eficaz.
Por isso mesmo, não creio na pose (tragicómica) de certos escritores que pretendem fazer-nos crer que, quando escrevem, sofrem muito (porque a literatura é muito dolorosa, dizem), e, quando deixam de escrever, também sofrem muito (porque não podem viver sem a literatura); enfim, meras palhaçadas, pensadas para impressionar o público ingénuo.